Campanha em tempo de pandemia: o que fizeram os candidatos

Por Alexandra Neves, Catarina Mendes, Daniela Dourado e Inês Lourenço

As ações de campanha tiveram início dia 10 de janeiro e acabam hoje. Os efeitos da pandemia também se fizeram sentir nas ações que os sete candidatos tiveram pelo país. Milhares de pessoas já votaram antecipadamente, no entanto, espera-se que milhões vão até às urnas este domingo, dia 24.

Vitorino Silva arrancou a sua campanha na Fortaleza de Peniche, por ser um local simbólico pela democracia. “Se não houvesse gente de coragem a saltar estes muros, a democracia não era uma realidade para todos e, simbolicamente, é a razão de eu ser candidato e poder debater com pessoas diferentes. Quando havia aqui presos, as pessoas não podiam pensar diferente”, afirmou o candidato.

Contudo, com o avançar da pandemia, Vitorino Silva, o candidato com orçamento mais baixo (16 mil euros), optou por cancelar as outras ações de rua. “Eu pertenço ao povo, não quero mordomias”, foi o motivo apresentado pelo candidato, que explica que, se o povo estiver confinado em casa, ele também estará. A solução encontrada e defendida para a campanha foi o regime de videoconferência: “é possível, a partir de casa, falar para o mundo”.

Fonte: Pedro Pina/RTP/LUSA

Vitorino Silva encontra-se em último lugar, com 2,1% de intenções de voto, de acordo com uma sondagem da Pitagórica para a TVI e para o Observador.

O objetivo da campanha de João Ferreira inicialmente privilegiava o contacto com trabalhadores e a realização de iniciativas de grande dimensão. Contudo, com a evolução da pandemia, o candidato optou por fazer iniciativas de menor dimensão, como é o caso da do dia 20 de janeiro, em Aveiro, onde admitiu a possibilidade de cancelar as restantes ações de campanha. Ainda assim, nos últimos dias, João Ferreira tem falado com os apoiantes por via digital.

Fonte: LUSA

Quanto ao orçamento entregue no Tribunal Constitucional, de 450 mil euros, o candidato do PCP esclarece que este “não é uma despesa”, acrescentando ainda que não produziu “qualquer tipo de merchandising”. João Ferreira conta com o maior orçamento para estas presidenciais, sendo superior 18 vezes ao de Marcelo Rebelo de Sousa.

João Ferreira acusa ainda a comunicação social de não ter feito cobertura da sua candidatura, em setembro. Em resposta ao Factualidades, o candidato afirma ter desenvolvido dezenas de iniciativas sem qualquer cobertura noticiosa.

São várias as polémicas que têm marcado a campanha de André Ventura. Logo na primeira semana, em Portalegre, o candidato dirigiu insultos a alguns dos restantes candidatos: “o avô bêbado” Jerónimo de Sousa, “a contrabandista” Ana Gomes, “o operário beto de Cascais” João Ferreira e “a espécie de fantasma ou de esqueleto” Marcelo Rebelo de Sousa. Mas foi a referência aos “lábios muito vermelhos” de Marisa Matias que fez furor nas redes sociais, levando ao movimento de indignação #vermelhoembelém, que pintou lábios tanto a cidadãos anónimos como figuras a públicas, nas quais se incluem Ana Gomes.

Além disso, o líder do Chega organizou um comício que juntou 170 pessoas num restaurante em Braga, no dia 17. No entanto, o mandatário nacional e diretor de campanha, Rui Paulo Sousa, afirmou que o jantar estava a cumprir todas as normas e que as distâncias estavam a ser respeitadas. As ações de campanha realizadas em Coimbra e Setúbal, nos dias 18 e 21, respetivamente, foram alvo de manifestações por opositores à ideologia de Ventura, o que se refletiu na necessidade de intervenção policial. Todos os outros candidatos vierem rapidamente em defesa do líder do Chega, condenando qualquer ato de violência. “Condeno totalmente qualquer forma de violência, ameaça ou coação, venham de onde vierem, dirijam-se a candidatos, jornalistas ou quaisquer outros cidadãos”, escreveu Tiago Mayan Gonçalves no Twitter. O orçamento da campanha eleitoral de André Ventura ascende aos 160 mil euros, mais do triplo do valor anunciado por Ana Gomes.

André Ventura em Setúbal.
Fonte: Rádio Regional

Por outro lado, Tiago Mayan Gonçalves passou este último dia de campanha com iniciativas online, começando por uma reunião com o Hospital Lusíadas Porto, seguida de uma conferência com o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas. Já ao final da tarde, o candidato encerra a sua campanha com um comício online, onde intervieram o presidente da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo e o mandatário nacional Michael Seufert.

Fonte: LUSA

O arranque da campanha presidencial da candidata do BE, Marisa Matias, aconteceu dia 10 de janeiro e começou ao lado de oito das 500 mulheres que há três anos lutaram pelos seus direitos laborais no encerramento da Triumph.

Marisa Matias vai estar nas ruas porque não quer que a campanha “seja um monólogo”, mas promete respeitar as regras sanitárias. “Dentro de todas as limitações, não podemos transformar campanhas em monólogos porque as campanhas servem para ouvir”, dando nota de que não pretende cancelar as suas ações de campanha, como fizeram Ana Gomes e Vitorino Silva. A candidata afirmou a sua campanha foi preparada depois de consultar especialistas e já tendo em conta que, muito provavelmente, nesta altura Portugal estaria “numa terceira vaga, que é o que se está a confirmar”.

Fonte: Sapo24

“Não necessitamos de anular arruadas, almoços ou jantares ou grandes comícios porque já não os tínhamos planeado, já não os tínhamos marcado. Tudo o que foi marcado, foi marcado no cumprimento estrito das regras sanitárias e protegendo as pessoas e é cumprindo essas regras que eu agora estou na rua para ouvir as pessoas porque a campanha também é para ouvir as pessoas.”

A candidata do Bloco de Esquerda respondeu aos comentários de André Ventura por causa da cor do seu batom, afirmando que “para quem ainda não percebeu, é por isso que quando um homem insulta uma mulher chamando-lhe “coisa de brincar” por usar batom vermelho, tem a resposta que merece: as mulheres não são coisas de brincar, as mulheres são gente de lutar. E sim, olhos nos olhos e de cabeça erguida, estas mulheres já estão, já começaram a derrotar quem as quer humilhar, mas ainda vão derrotar mais”.

Já Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e recandidato a Belém, afirma que esteve quase para não fazer nenhuma ação de rua: “tenho tentado reduzir ao mínimo as intervenções e que confesso que numa primeira fase estava quase tentado a reduzir a praticamente nada”, explica o candidato.

Esclarece que, ainda assim, optou por fazer algumas ações de campanha. De facto, Marcelo Rebelo de Sousa saiu à rua apenas durante quatro dias, porque se não o fizesse, era visto como tendo uma atitude “arrogante” de “distanciamento” e “autoconvencimento”. “Era difícil de explicar que era por uma questão de precaução e de contenção sanitária. Passei a ter uma ação praticamente todos os dias”, refere o candidato. As ações do Presidente República passaram por visitas a instituições, hospitais, nomeadamente ao do Porto e ao de Gaia, por uma a ida à Universidade Nova, ao campus de Carcavelos, para ser entrevistado por estudantes. A ação termina esta sexta-feira em Celorico de Basto, no distrito de Braga – o mesmo local onde tinha terminado a sua campanha há cinco anos.

Marcelo Rebelo de Sousa em campanha na Feira do Livro, no Porto.
Fonte: LUSA

A realidade é que Marcelo Rebelo de Sousa prescinde dos tempos de antena na televisão e na rádio, para, segundo o próprio, não mostrar uma disparidade entre as imagens da sua história recente como Chefe de Estado e as dos outros candidatos.
O Presidente da República prevê gastar 25 mil euros, 84% menos do que apresentou há cinco anos, aquando das presidenciais de 2016, que previa despesas no valor de 157 mil euros. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, a maior parte dos gastos serão com “custos administrativos e operacionais”, no valor de 16 mil euros. O candidato estima gastar 3500 euros em “propaganda, comunicação impressa e digital”, 1500 euros com a “conceção da campanha, agências de comunicação e estudos de mercado”.

Ana Gomes revela ter feito a maior parte da campanha por meios digitais, mas também não quis perder “o contacto com as pessoas que são obrigadas a estar a trabalhar”. Bombeiros, ETARS, comunidades ciganas e jovens fizeram parte de alguns dos pontos por onde a candidata esteve. Esta sexta-feira, último dia de campanha, participa numa conferência digital sobre o futuro de Portugal, que terá como cabeça de cartaz o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos.

Fonte: Diogo Ventura/Observador

A campanha da candidata tem um orçamento que ronda os 50 mil euros, um orçamento que considera “baixo, mas realista”. A candidata aceita contribuições individuais que podem ir até aos 100 euros e incentivou os outros partidos a fazerem o mesmo, uma vez que a lei permite que as mesmas podem chegar aos 26 mil euros.