Fonte: TVI24

Eleições em pandemia: quase 75 mil pessoas infetadas não vão poder votar

A inscrição para o voto ao domicílio, para as pessoas em confinamento obrigatório, terminou dia 17. Quem ficou infetado depois dessa data, está impossibilitado de exercer o direito ao voto.

 

Fonte: TVI24

 

74668 é o número, a contar por baixo, de pessoas que, no dia 24 de janeiro, não vão poder ir às urnas para escolherem o próximo Presidente da República Portuguesa.

Com a situação em que se encontra o país, foi criado um meio para que, quem se encontrasse em isolamento devido à covid-19 pudesse exercer o seu direito ao voto: “os eleitores que, por força da pandemia da doença COVID -19, estejam em confinamento obrigatório, no respetivo domicílio ou noutro local definido ou autorizado pelas autoridades de saúde que não em estabelecimento hospitalar, podem votar antecipadamente, (…) através do registo em plataforma digital disponibilizada para o efeito pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, a partir do décimo e até ao final do sétimo dias anteriores ao do sufrágio”, informação patente no site da Comissão Nacional de Eleições.

A alternativa dada aos eleitores é ajustada à situação atual, com uma falha: entre os dias 18 e 23 existem cerca de quase 75 mil pessoas que ficaram infetadas e que não vão poder votar.

Bruna Silva, 18 anos, Carolina Reis, 20, Raquel Marques, 20, e Francisca Jardim, 21, são algumas delas.

Encontram-se todas em isolamento depois do dia 17, logo, estão impossibilitadas de votar. “Estou em isolamento profilático porque os meus pais testaram positivo. Eles isolaram-se desde o momento em que tiveram os sintomas e quando deram positivo eu fiz o teste e dei negativo. Mesmo assim, vou ficar em isolamento até sexta, dia 29”, refere Bruna Silva, que, apesar de ter testado negativo à covid-19, terá de se cumprir o confinamento obrigatório. Com ela, estão outras três pessoas que vivem na mesma casa: “o meu pai, de 49, a minha mãe, de 48, e o meu irmão, de 23”, esclarece a jovem.

Entre as quatro jovens existe o sentimento de impotência por não poderem votar: “sinto-me frustrada porque os nossos superiores não se souberam adaptar ao contexto pandémico atual, principalmente por agora, na altura das eleições, sermos dos países mais afetados do mundo. Dez dias fazem toda a diferença para as pessoas não irem votar por causa da Covid. Já estamos a viver isto há praticamente um ano, tiveram imenso tempo para arranjarem uma solução”, conta Carolina Reis, que está infetada e que se encontra em confinamento desde dia 18, com o pai e mãe, de 61 e 60 anos, respetivamente.

Francisca Jardim está no último ano do curso de enfermagem e estava em estágio no Hospital Santa Marta, quando começou a ter sintomas e, consequentemente, ficou infetada com o vírus. Com ela, ficaram impossibilitados de votar a mãe, o pai, a madrasta, o filho da madrasta e a tia, pessoas com quem teve contacto direto: “estou muito irritada, tal como os meus pais. Estamos todos irritados porque, por exemplo, na página de Instagram “a política não importa” mil pessoas já comentaram a dizer que não vão poder votar por causa desta situação.”

A página de Instagram já conta com 6360 seguidores e é um projeto “de jovens para jovens, apartidário, que pretende combater a abstenção jovem”. A iniciativa apela a quem se encontra nesta situação de não poder votar a apresentar queixa à Comissão Nacional de Eleitores, tal como à Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

 

 


Raquel Marques descobriu, no dia 19, que estava infetada e ficou logo em confinamento com os pais, de 51 anos, e com a irmã, de 24. Frustrada com a situação em que se encontra, aponta soluções que deveriam ter sido ponderadas pelo governo português: “deveriam ter adotado outros métodos, além dos votos presenciais, como votar online, por correspondência, ou qualquer coisa!”

Bruna Silva concorda e ainda acrescenta: “ou até mesmo o adiamento das eleições? Estas opções dariam alternativas a muita gente que, neste momento, não tem nenhuma”.

Até agora, estudos apontam para uma taxa de abstenção nunca antes vista e a jovem de 18 anos considera que vai ser “uma coisa ridícula”.

Carolina Reis responde à questão de “o que poderia ter sido feito?” com os desenvolvimentos tecnológicos: “vivemos no século da tecnologia. Quem não pode sair de casa, por questões de saúde, não devia de ser impedido ao voto. Várias propostas foram postas em cima da mesa e depois ignoradas. Porquê? Tiveram tempo de as estudar. Voto por correspondência, por exemplo, arranjarem um site oficial e seguro, em que as pessoas se podiam registar e votar por aí.”

Portugal continua numa rápida e íngreme subida de casos nos últimos dias: no dia 18, com 6702, no dia 19, com 10455, no dia 20, com 14647, no dia 21, com 13544, no dia 22, com 13987, e no dia 23, com 15333, um novo máximo diário.

Se formos fazer as contas e virmos um cenário hipotético, mas que se prende à realidade, em que as 74668 pessoas que testaram positivo à covid-19, entre 18 e 23 de janeiro, vivem com mais três, que tiveram de ficar confinadas por terem contacto direto com casos positivos, o número final de pessoas que estão proibidas de votar fica superior a 200 mil.

A taxa de abstenção nas últimas eleições presidenciais, em 2016, foi superior a 50%. No dia 24 de janeiro de 2021, as urnas abrem novamente às oito horas e encerram às 19.