Desconfinamento: os cabeleireiros no topo da lista

Dois meses depois de estarem fechados, os cabeleireiros do país voltaram a abrir no dia 15 de março. Apesar de um presente risonho, o início do ano marcou fortemente o negócio

 

 

As brocas nas unhas que retiram o pouco gel que sobreviveu a dois meses de confinamento, as pratas nas raízes brancas, que em janeiro eram loiras, o funeral de fios de cabelo estendidos no chão e os borburinhos que contam as novidades que têm de ser postas em dia. Este é o ambiente atual do cabeleireiro de Ângela Pinheiro.

Nani, alcunha de Ângela e o nome do estabelecimento, esteve com as luzes apagadas desde dia 15 de janeiro, altura em que teve início o segundo confinamento geral em Portugal. Mesmo com as portas fechadas e com o negócio parado, as despesas continuaram a cair na conta da proprietária do estabelecimento: “renda, água, luz, gás, os fornecedores. Só se sobrevive com a ajuda das outras pessoas, neste caso foi o meu marido, senão não iria conseguir estar aqui com a loja aberta de novo”, confidencia Nani.

 

A dona do estabelecimento, Ângela Pinheiro, depois de dois meses sem trabalhar

 

Já não é a primeira vez que Portugal passa por uma situação de confinamento geral e, apesar de não ser algo novo para Ângela Pinheiro, sentiu que foi mais difícil de aceitar este novo regresso a casa. “Muito mau” são as palavras que usa para adjetivar os primeiros meses do ano de 2021: “achei que fosse só aquela vez e que não iriamos voltar ao passado. A diferença agora foi um medo muito grande daquilo que vinha aí. E tenho medo de que venha outra vez”.

Sónia Oliveira, esteticista que integra o grupo de quatro pessoas que trabalha na loja, partilha da mesma opinião que Ângela: “já sabia para aquilo que ia. No outro foi uma situação nova, que nunca tínhamos passado antes. Neste já sabíamos com o que contar, que íamos estar sem ordenado, que os apoios infelizmente não são aquilo que a esperávamos e, no geral, foi bem pior.”

 

 

Uma das funções de Sónia Oliveira é a manicure

 

Os apoios económicos disponibilizados pelo Estado são a esperança que reside em quem se vê obrigado a fechar portas devido à covid-19. Para Ângela, os apoios foram o marido e pouco mais:

O Estado deu-me, no mês de fevereiro, 290€. Mas só nesse mês. Eu pago uma renda de 600€ e tive de continuar a pagar à mesma os meus impostos. Não é fácil.”

Relativamente às restantes três pessoas que trabalham com Nani, Sónia, Sofia e Nádia, são trabalhadoras por conta própria e recebem à comissão, logo, não representam um encargo maior para quem dirige o negócio.

Sónia, mais uma vez, partilha da opinião de Ângela, no que aos apoios diz respeito: “não é aquilo com que as pessoas contavam que fosse, mas é o que nós conseguimos que nos dessem. Antes aquilo que eu recebi, do que não receber nada, não é?”, assegura a esteticista.

Foi pouco mais de 200€ que viu, até ao momento, chegar à sua conta, mas não é hipócrita e justifica o valor: “não estou assim há tanto tempo a recibos verdes, ou seja, a descontar, que justifique eu ter um valor superior àquilo que recebi. Temos de contar com isso. Não podemos estar há sete ou oito meses a trabalhar e querer que o Estado nos pague 500 ou 600 euros. Porque ainda não descontámos o suficiente para receber esse valor”, afirma.

 

 

Estabelecimento de cabeleireiro e estética, localizado em Queluz

 

Apesar do desespero do passado e do medo do futuro, o presente trouxe um alívio que permite voltar a dar vida aos cabeleireiros de Portugal continental. Foi no dia 12 de março, às oito da noite, que esse alívio foi expresso para o país, pelo primeiro-ministro António Costa. Depois da informação sobre a reabertura dos cabeleireiros, Sónia não se lembra de mais nada: “Eu só ouvi o senhor Costa a dizer “os cabeleireiros e esteticistas vão abrir” e depois só ouvi blá blá blá blá blá e mais nada…”.

Já Ângela estava certa de que dia 15 iria voltar a meter “as mãos na massa”, quer fosse pelas direções do Governo, ou de outra forma:

Eu tinha de abrir dia 15, senão ia começar a trabalhar às escondidas. Não havia outra hipótese. Era isso ou não comia”.

A esperança era o que mantinha a dona do estabelecimento positiva, contrariando o que as pessoas, em geral, lhe iam dizendo: “eu tinha fé que fossem abrir já a partir de dia 15, tanto que toda a gente me dizia “olha que não, que vai ser só em abril e eu respondia que se fosse só em abril que me dava uma coisinha má”, afirma Ângela Pinheiro.

 

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Post no Instagram oficial do Governo português, onde descreve o plano de desconfinamento

 

Se, por um lado, o medo de contrair o vírus ainda está muito presente entre a população, por outro, a vontade de sair de casa para pintar o cabelo ou arranjar as unhas falou mais alto: “ainda estava o primeiro-ministro a falar e já tinha clientes a mandar mensagens para o meu telemóvel para fazerem marcações”, conta Sónia.

O feedback das clientes habituais do salão, segundo a dona do mesmo, foi muito positivo, até demais: “tem sido bom para nós, mas não conseguimos atender todas as pessoas, porque não aguentamos o cansaço”. A enchente de pessoas foi mais expressiva nos primeiros dias depois da reabertura, mas o sentimento do lado de quem trabalha foi de como se de um prémio milionário se tratasse: “parece que me tinha saído o Euromilhões. No dia que se anunciou que íamos abrir, até à meia noite, o telemóvel esteve sempre a tocar”, conta Ângela a rir, enquanto relembra o momento.

Os cabeleireiros, as esteticistas e similares foram dos primeiros setores a abrir, depois de dois meses encerrados. No dia cinco de abril, tudo indica que mais setores voltem a abrir, e assim por diante e de 15 em 15 dias até ao dia três de maio, segundo o que consta no plano de desconfinamento a conta-gotas, decretado pelo Governo.