Daunte Wright: terceira noite de protestos contra morte de Afro-Americano pela Polícia, em Minneapolis

Centenas de pessoas manifestaram-se na terça-feira, pela terceira noite consecutiva, contra o assassínio de um jovem negro, Daunte Wright, pela polícia de Brooklyn Center, num bairro de Minneapolis, nos Estados Unidos

Por Débora Frade, Filipa Silva e Inês Caretas

 

A agente que atirou e matou o afro-americano Daunte Wright apresentou a sua demissão na terça-feira, juntamente com o chefe da sua esquadra. No entanto, as demissões não silenciaram os protestos, que se continuaram a realizar.

Ela devia ter sido despedida. O seu pedido de demissão não devia ter acontecido antes disso”, disse Amber Young, uma das manifestantes que integrou os protestos, em declarações à BBC.

Os protestos acontecem todas as noites desde o incidente de domingo e alguns tornaram-se violentos. Na terça-feira, o protesto começou pacificamente, mas em poucos minutos o caos espalhou-se perto da esquadra de polícia do Brooklyn Center.

Os polícias usaram gás pimenta e dispararam bombas de fumo contra os manifestantes, que atiraram garrafas de água e outros objetos contra os polícias.

Manifestantes também foram vistos a subir uma barreira perto da instalação da polícia, segurando uma faixa que dizia “Justiça para Daunte Wright”, de acordo com os meios de comunicação locais.

Após a entrada em vigor do recolher obrigatório, às 22h, a maior parte dos manifestantes retirou-se e apenas algumas dezenas permaneceram na área, enquanto a polícia protegia as instalações da esquadra.

De acordo com a polícia local foram feitas mais de 60 detenções por “motins e outros comportamentos criminosos”.

 

“Estou a monitorizar de perto a situação em Brooklyn Center. A Gwen e eu estamos a rezar pela família de Daunte Wright enquanto o nosso Estado lamenta mais uma vida de um homem negro que foi tirada pelas forças policiais”, disse o governador Tim Walz.

O que aconteceu

 

Foi no passado domingo que Daunte Wright, de 20 anos, foi morto a tiro durante uma operação de trânsito nos arredores de Minneapolis, a 15 quilómetros do local onde George Floyd foi asfixiado durante uma ação policial.

A polícia de Brooklyn Center afirmou, em comunicado, que os polícias mandaram parar o jovem por uma infração de trânsito, mas acabaram por descobrir que ele tinha um mandado de prisão pendente.

Quando um dos agentes o tentou deter, ele regressou ao seu carro. Foi nesse momento que o polícia atirou. Daunte ainda dirigiu vários quarteirões até atingir outra viatura e acabar por falecer no local.

A mãe do jovem, Katie Wright, contou aos jornalistas que recebeu uma chamada do filho quando tudo aconteceu.

“Ouvi uma pequena luta e depois ouvi um polícia dizer: ‘Daunte, não corras! E ‘larga o telemóvel!’, e depois a chamada caiu”, disse Katie Wright. “Um minuto depois, voltei a telefonar e a namorada dele atendeu – ela ia no lugar do pendura – e disse que ele tinha sido abatido. Virou o telemóvel para o lugar do condutor e vi o meu filho sem vida”.

A polícia disse também que as câmaras presas aos corpos de ambos os agentes de autoridade estavam ligadas e gravaram o incidente. O Departamento de Apreensão Criminal do estado de Minnesota confirma que abriu uma investigação.

O dirigente da União Americana pelas Liberdades Civis do Minnesota uma organização não governamental cuja missão é defender direitos individuais nos EUA, afirmou que uma agência independente deveria investigar o caso e exigiu a divulgação imediata de todos os vídeos do incidente.

A organização referiu ainda ter “profundas preocupações sobre a polícia aparentemente ter usado ambientadores de ar pendurados no retrovisor do veículo como desculpa para proceder a uma abordagem com pretexto, algo que fazem com bastante frequência para atingir os negros”.

Depois do incidente, as autoridades da cidade de Brooklyn Center decretaram o recolher obrigatório até à madrugada desta segunda-feira, na sequência de confrontos entre a polícia antimotim e centenas de manifestantes.
As famílias dos dois afro-americanos mortos pela polícia em Minnesota organizaram uma conferência de imprensa conjunta na terça-feira para demonstrar a sua “união”.

O caso de George Floyd

 

Não é a primeira vez que um negro morre às mãos da polícia de Minnesota.
Em maio de 2020, a morte de George Floyd provocou uma onda de contestação, com manifestações contra o racismo e a violência policial, nos EUA e no resto do Mundo.

 

Um vídeo de 10 minutos mostra um polícia branco ajoelhado no pescoço de Floyd, enquanto ele diz repetidamente “Não me mate. Não consigo respirar”.

As testemunhas pediram ao polícia para tirar o joelho do pescoço da vítima, enquanto se apercebiam que George Floyd já não respirava.

O Departamento de Execução Penal de Minnesota iniciou uma investigação.

O julgamento começou e as testemunhas insistiram na teoria de que Floyd morreu devido ao uso de drogas ilegais e a um problema cardíaco e que o uso de força sobre a vítima foi apropriado.
Um dos principais testemunhos foi de Barry Brodd, ex-agente da polícia. “Sinto que [as ações de] Derek Chauvin nas suas interações com Mr. Floyd foram justificadas, e que ele estava a agir com uma razoabilidade objetiva, seguindo os atuais padrões da polícia de Minneapolis”, declarou Brodd.

O ex-agente da polícia acrescentou que o uso da força na detenção de Floyd — por suspeitas de pagar com uma nota falsa de 20 dólares — também foi justificada. O homem, que foi polícia durante 30 anos, lembrou que os suspeitos sob efeito de drogas podem “não sentir dor” e ter “força sobre-humana”, e que por isso fez sentido manter Floyd de barriga para baixo — mesmo após ele ter parado de resistir e se ter queixado de não conseguir respirar. Os agentes da polícia — incluindo Chauvin — são ensinados sobre o perigo desta posição, que pode resultar em “asfixia posicional”. Os procuradores confrontaram Brodd com este argumento.

Derek Chauvin, suspeito de ter matado Floyd, está a ser julgado há 3 semanas na cidade onde foi baleado Daunte Wright, no dia 11 de abril.